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16/07/2020 - 17h07m

CRÔNICA

Crônica: O namorado de mamãe

Por Cláudio Duarte

Ilustração: Cláudio Duarte, Carlessandro Souza e Messias Filho

Papai chega pelo corredor lateral de nossa casa, cruza a sala de entrada e vai para o quarto em que durmo; mamãe entra pela porta que liga seu cômodo a meu aposento.

Da sala, vejo quando se encontram; ela entrega a ele a valise preta com roupas, deseja boa viagem, e eles se beijam. 

Eu desconfio, na hora, que os dois estão namorando. Aos quatro anos de idade, obviamente, eu nada entendo de relacionamentos. 

Os dois vivem que nem irmãos. Vão sempre às festas juntos; e mamãe só serve o almoço quando papai volta da rua. Eles até dormem no mesmo quarto.

Papai é um exímio piloto, domina tanto os barcos pequenos quanto os grandes. É reconhecido como um dos melhores, e o mais destemido piloto do Araguaia e Tocantins.

Conhece todos os canais e rios da região e é perito em atravessar, nas vazantes, os traiçoeiros banzeiros das perigosas cachoeiras.

A bordo do Asa Branca, ele sai de Araguatins e vai a Imperatriz, Carolina, Xambioá, Marabá, Jatobal, e outras cidades. Além de artigos para o comércio, transporta ribeirinhos que se deslocam do beiradão até os centros mais desenvolvidos.

Na pequena e ágil voadeira, ele vai aos garimpos de cristais e diamantes. Leva e traz ricos negociadores de pedras preciosas vindos de todo o país. São viagens longas e cansativas. 

Saudoso, eu conto os dias para o seu retorno. E enquanto esperamos, mamãe me conta como papai quase a roubou de sua casa e como depois ele foi obrigado a casar-se com ela. Sorrimos.

Coloco a mão na cabeça e vejo se papai já vai chegar. Quanto mais perto a mão estiver da testa mais rápido ele retorna. Dessa vez, a palma da mão se ajusta bem ao meio da testa. Ele vai chegar.

No fim do dia, quando o por do sol irradia no céu suas luzes multicores e reflete no espelho d’água lindas aquarelas, os botos nadam em direção ao Taquari, e o senhor dos rios aponta no travessão.

Com água acima do passeio, ele contorna a Pedra Grande e aporta perto da rampa. Traz arroz, açúcar, caixas com óleo e latas com querosene; em cima da casinhola, quatro cofos com farinha.

Quando a Transamazônica cruza a região e surgem as vicinais, os barcos perdem sua importância para o comércio regional; e papai compra seu primeiro carro, uma caminhonete C10. Tempos depois, ele volta a pilotar voadeira; leva turistas às praias. E ele também tem uma moto.

Aos 90 anos, é saudável e feliz; orgulha-se de não adoecer e recebe com um grande sorriso quem em sua casa chega para ouvir suas histórias.

Ele sai bem cedo, de moto, vai à panificadora; mas surge um estorvo na contramão da vida e meu pai faz sua última viagem.

Velhinho danado. Um mês após partir, seduz e rouba novamente a sua antiga namorada.

Penso neles e imagino meu pai com as mãos à cintura, a indagar:

- Lindalva... e esses meninos que nunca chegam?

E mamãe balançar a cabeça e pensar: Êta homem impaciente. E falar calmamente, em baixo tom:

Pedro Duarte, deixe meus filhos se divertirem.

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